O Equilíbrio Mental versus Equilíbrio Vocal
A atividade mental no canto
A prática do canto envolve uma atividade mental de elevada complexidade, a qual tanto pode constituir-se como um aliado do cantor como, inversamente, um obstáculo que o impede de alcançar o seu potencial máximo enquanto intérprete. Cantar a nível profissional figura entre as tarefas mais exigentes para o sistema nervoso central do ser humano, uma vez que implica a combinação de movimentos físicos complexos, que requerem a coordenação de competências motoras e auditivas. Estas, por sua vez, estabelecem múltiplas conexões e interações entre as diferentes regiões cerebrais durante a prática.
O córtex cerebral, considerado o órgão mais complexo do corpo humano, desempenha um papel central na gestão das funções cognitivas. Encontra-se dividido em dois hemisférios, ligados por cerca de 200 milhões de fibras nervosas que constituem o corpo caloso.
O canto mobiliza, por um lado, o pensamento lógico e técnico, tradicionalmente associado ao hemisfério esquerdo e, por outro, a criatividade e a comunicação não verbal, tradicionalmente associadas ao hemisfério direito, pelo que ambos os hemisférios têm oportunidade de participar.
O hemisfério esquerdo relaciona-se sobretudo com o pensamento analítico, a definição de estratégias, a avaliação, o espírito crítico, o detalhe e a comunicação verbal; o hemisfério direito, com os processos intuitivos, os sentimentos, a imaginação e a compreensão não verbal (Fig. 1). O desafio que se coloca ao cantor consiste, assim, em tirar o máximo partido da sua atividade mental em contexto de performance.
A atitude mental como ferramenta
A performance bem-sucedida é, por norma, acompanhada de uma atitude confiante e otimista, de serenidade interior e de um elevado grau de concentração. Em sentido oposto, quando predominam padrões de pensamento negativos, aumenta o risco de tensões físicas e diminui a capacidade de concentração, comprometendo-se a prestação.
Um padrão de pensamento positivo facilita ao cantor a perceção de controlo sobre a sua técnica, o relaxamento físico e uma elevada consciência do próprio corpo e do ambiente envolvente. Este estado resulta do equilíbrio entre o corpo físico, a dimensão mental e o rigor técnico, três vertentes indissociáveis de qualquer performance. Na obra Power Performance for Singers, as autoras afirmam:
«Quanto maior o nível de bem-estar físico e o domínio das competências vocais, musicais, linguísticas e dramáticas, maior será o controlo sobre a performance. Contudo, quanto maior o nível das competências físicas e técnicas, maior será a importância dos aspetos mentais.» (Emmons & Thomas, 1998, p. 12)
As mesmas autoras enumeram as características psicológicas que permitem alcançar um elevado nível de performance (Emmons & Thomas, 1998, p. 14):
- ausência de medo;
- capacidade de regular a ansiedade e a excitação durante a performance;
- manutenção de pensamentos e imagens positivas ao longo da performance;
- confiança elevada e inabalável;
- capacidade de permanecer focado e concentrado, sem distrações;
- determinação para o sucesso;
- compromisso e disciplina;
- controlo sobre a performance.
O cantor deve, por conseguinte, tornar-se consciente dos seus padrões de pensamento. O controlo físico e técnico exercido ao longo da performance decorre, em grande medida, do ambiente psicológico e emocional a que o cantor se encontra sujeito. Um estado mental «ideal» favorece uma melhor performance e, reciprocamente, o êxito de uma prestação reforça esse mesmo estado mental (fig. 2).
Estratégias para promover um estado mental «ideal» na performance
As autoras referidas identificam um conjunto de competências desejáveis para alcançar este estado: o estabelecimento de um planeamento claro e específico, bem como de metas a atingir; o trabalho da autoconfiança; a gestão dos níveis de energia mental; a valorização das competências inatas e/ou já adquiridas; o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional; a fruição de cada momento de performance e da respetiva preparação; a persistência; a focalização no momento presente (evitando os receios associados a experiências passadas ou a preocupações com eventualidades futuras); e a abstenção de julgar a performance enquanto esta decorre.
Todos estes aspetos remetem para uma atitude resiliente, que se refina diariamente, com controlo e consistência, tanto na técnica e no domínio artístico como nas competências mentais. Encarar cada situação como um desafio, e não como uma dificuldade ou uma ameaça, minimizar os erros e as distrações e retirar o máximo de aprendizagem de uma performance menos conseguida são atitudes que reforçam a resiliência mental do cantor. A prática consistente desta atitude fortalece a motivação e torna o cantor mais positivo, ainda que realista quanto às suas capacidades. Dela resultam, igualmente, um maior controlo emocional (estados como a fúria, a frustração ou o pânico têm menor probabilidade de interferir com a performance), uma atitude calma e relaxada (em que a pressão é encarada como desafio e não como ameaça), maior capacidade de concentração, maior controlo e responsabilização sobre as próprias ações, determinação para o sucesso e capacidade de manter elevados níveis de energia mental. Estas características constituem, para o cantor, uma oportunidade de aprofundar o autoconhecimento e de aprender a lidar consigo próprio.
a) Autoconfiança
O pensamento positivo é uma das competências e ferramentas mais poderosas ao dispor do cantor. A confiança estimula emoções e pensamentos positivos e, inversamente, a performance reflete, ainda que de forma inadvertida, a atitude interna, os comportamentos e o modo como o cantor se perceciona a si próprio. Mesmo na presença de um bom domínio técnico e de uma boa condição física, a falta de confiança na qualidade da prestação vocal acabará por se manifestar na performance.
Como pode, então, o cantor adquirir e fortalecer a autoconfiança? Emmons e Thomas (1998) apontam cinco meios (fig. 3): (1) a interação com pessoas capazes de fornecer feedback positivo sempre que este se justifique; (2) a focalização em performances e experiências anteriores bem-sucedidas; (3) o contacto com pessoas bem-sucedidas, que possam ser tomadas como modelo; (4) a persuasão verbal, capaz de modificar atitudes e comportamentos conducentes à autoconfiança; e (5) a capacidade de controlar pensamentos e emoções negativos. A persuasão verbal assenta na adoção de afirmações positivas que conduzam a este estado de autoconfiança, isto é, afirmações que valorizem as características, os traços e as competências positivas do cantor e que confirmem as suas forças, qualidades e competências, tanto ao nível mental (consciente e subconsciente) como físico.
b) Distrações
Tanto em situação de performance como em sessão de estudo, determinados fatores geradores de distração podem comprometer a eficiência vocal. As situações que provocam ansiedade, nervosismo ou receio podem perturbar o foco mental e, consequentemente, a execução e a emissão vocal. Ter consciência do que deve constituir o foco em cada momento da performance permite dedicar menor atenção aos fatores de distração.
Entre os que mais frequentemente conduzem à distração contam-se (fig. 4):
- os espaços físicos que não são familiares ao cantor, dado que a dimensão, a acústica ou a luminosidade podem constituir fatores negativos;
- as reações físicas internas, desencadeadas pelo nervosismo ou pela ansiedade, tais como a sudorese, os tremores, as palpitações ou a secura da boca;
- o público, o qual pode incluir um painel de jurados (no caso de uma audição), outros cantores, professores, coaches, maestros ou agentes.
Para reduzir os focos de distração, podem adotar-se estratégias como: integrar e tomar consciência destes aspetos na prática vocal e nos ensaios; realizar apresentações o mais semelhantes possível ao contexto real de performance (mock auditions); e incluir estratégias de relaxamento pré-performance, como massagens, alongamentos e respiração consciente.
c) Concentração
A concentração constitui igualmente um parâmetro fundamental na relação entre a mente e o resultado vocal, sendo essencial definir as metas a atingir durante a prática. O recurso às estratégias seguintes poderá contribuir para o aumento da concentração e, consequentemente, para a obtenção de melhores resultados:
- focalizar a atenção nas sensações físicas proporcionadas pela aplicação da técnica, criando imagens mentais alusivas a essas sensações;
- executar uma peça ou um excerto vocal sem juízos de valor durante a prática, permitindo que a execução flua de modo instintivo e natural;
- praticar em condições semelhantes às percecionadas numa performance anterior considerada bem-sucedida;
- praticar por períodos curtos de tempo, com total imersão nas sensações e nas metas a atingir.
A aplicação destas estratégias contribui para um estado mais relaxado, livre de tensões indesejáveis, bem como para uma maior clareza mental.
Conclusão
A performance vocal a nível profissional exige o domínio de competências motoras e o reconhecimento de padrões comportamentais, os quais envolvem um conjunto complexo de operações percetivas e cognitivas que decorrem no sistema nervoso central. A plasticidade que o caracteriza permite a sua adaptação às exigências da performance vocal profissional ao longo de uma prática prolongada. Com efeito, o ato de cantar, quando realizado de forma continuada, pode induzir uma reconfiguração das redes neuronais, envolvendo a ativação de células nervosas e contribuindo para a modulação da organização funcional da audição, bem como dos padrões sensoriais e motores e das representações visuais. Mediante o seu foco de aprendizagem, o cantor poderá, deste modo, criar novos padrões que o conduzam a diferentes resultados performativos e, consequentemente, a uma maior satisfação com a sua prestação.
Referências
Emmons, S. & Thomas, A. (1998). Power Performance for Singers. New York: Oxford University Press.
Green, B. (2015). The Inner Game of Music. London: Pan Books.
Parncutt, R. & McPherson, G. E. (2002). The Science & Psychology of Music Performance. New York: Oxford University Press.
